Museu de Peniche

 

o acervo e a imagem

artigo de Ricardo Costa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  Fortaleza de Peniche                                                                                                                   lado poente

 

As coisas visíveis, os objectos que ocupam determinado lugar ou aqueles que aí foram colocados para serem vistos, aí, em determinado espaço que constitui o seu contexto, que por si só já fala, dizem-nos mais do que algo sem contexto. Essa relação íntima entre um local detentor de uma carga significante e o significado do que aí está inscrito é o primeiro degrau de uma espécie de espiral que nos conduz a um patamar superior de onde avistamos um horizonte de realidades mais abrangentes. Sendo imaginárias, são em geral indícios de coisas por vezes surpreendentes. Imaginada, a coisa real é sempre mais que crua realidade. Do mesmo modo, uma simples imagem, enquadrada em determinada matéria ou em determinado lugar, fala mais que uma imagem sem enquadramento. Basta-nos por vezes um leve vestígio, uma simples imagem encaixada na realidade que a abraça, para percebermos o seu inteiro significado. É a imaginação pura aquilo que, em qualquer dos casos, nos conduz ao conhecimento ou à descoberta,

 

Vem isto a propósito do museu que existe na Fortaleza de Peniche. Quer isto dizer que, com imaginação, aquilo que existe num museu pode conduzir-nos a lugares que lá não estão e a realidades que se sabe que lá não existem. Significa isto também que, num lugar preenchido com poucas coisas, muito pode ser visto. As portas ali abertas podem não só fazer sonhar sobre aquilo que esse lugar envolve como por outro lado mostrar com particular evidência aquilo que nesse lugar está envolvido.

 

Durante anos sombrios estiveram as portas da fortaleza fechadas com grossas trancas de ferro. Serviam para travar o sonho. Pior ainda, serviam para o mutilar com abomináveis castigos e o punir com inomináveis sofrimentos. Um dia porém, um dia libertador, sem data esperada, acabou com tudo isso. Foi o dia em que os cravos saíram para a rua, deixando de uma vez por todas essas portas abertas, para a terra ou para o mar. Quer isto dizer ainda que nunca mais e a ninguém mais deverão essas portas ser fechadas: nem de dentro para fora nem de fora para dentro.

 

Abertas as portas da fortaleza no dia 25 de Abril de 1974, soltava-se assim a imaginação de quem sentia que Peniche merecia algo que esse espaço aberto oferecia. Sonhavam uns, com sentido de vingança, em transformar e dignificar um local destinado a fins ignóbeis, que muito dinheiro do Estado consumia, em algo como um lugar de recolhimento, nobre, uma pousada, por exemplo. Peniche, que sempre fora pobre, teria assim, como outras terras, o contrário do que ali estivera, não um inferno, sombrio e esbanjador, mas sim um cantinho do Paraíso, um refúgio luminoso, distinto e rentável. Viria de longe gente fina e a vergonha seria esquecida. Sonhavam outros em aproveitar esse espaço,  suspenso sobre o mar e banhado pelo sol, para dar à terra aquilo, no sentido mais corrente, que ela nunca tinha tido: cultura, algo que, como explicava o Professor Manuel Viegas Guerreiro, num sentido mais abrangente, o homem não letrado também tem para dar. Um lugar de ócio e lazer para gente rica é que não. Um museu serviria os da terra e os de fora. Entre uns e outros, havia quem, mais apaziguador, entendesse que o melhor seria juntar as duas coisas. Juntava-se o útil ao agradável. A questão tornou-se polémica e, apesar de esquecida durante um quarto de século, a polémica perduraria (ver discussão Peniche, de prisão a pousada? no blog Caminhos da Memória).

 

Estávamos no início da década de oitenta. Tinham saído da fortaleza os retornados das antigas colónias portuguesas que noutro local não tiveram abrigo. As portas do velho forte estavam agora abertas e ele foi tomado de assalto, em ocupação selvagem. Sei do que falo: eu próprio, com mais duas pessoas, o Francisco Reiner, que não era da terra mas que por ela torcia, e o professor António José Fonseca que, sentindo-se penicheiro por Peniche se empenhava, com a conivência de alguns amigos, fomos os assaltantes. A ideia era instalar aí um museu, coisa de que se falava. O culto ainda fresco da democracia que dominava os espíritos de então, mal refeitos de um pesadelo que durou décadas, foi aquilo que permitiu que uma autarquia do centro-direita visse a criação de um museu nesse local como uma operação acertada e a secundasse sem hesitar. Vivia-se entretanto uma época de instabilidade política que levou à queda dos autarcas de então (José Maria Malaquias: de 1 de Janeiro de 1983 a 6 de Dezembro do mesmo ano). Foram eles substituídos por um elemento camarário do Partido Socialista, Fátima Pata (de 6 de Dezembro de 1983 a 31 de Dezembro de 1985). Tomou a Fátima as rédeas do poder local e encarniçou-se na consolidação do projecto: lançar no forte de Peniche os fundamentos de um Museu do Mar. Tendo em conta a acção do Estado Novo, que desfigurou a fortaleza no seu traçado arquitectónico e a marcou, entendeu-se ser inquestionável manter o que tinha sido o núcleo da prisão política: as celas e o parlatório. A decisão deu que falar. Havia quem pretendesse que o célebre parlatório, situado logo à entrada do forte, fosse destruído e transformado em secretaria e que as celas, noutro piso, fossem convertidas em espaço destinado a outra coisa que não a invocação da memória da resistência. Fátima Pata subscreveu a ideia de manter intacto o espaço da antiga prisão e obteve a colaboração de quem para isso achou qualificado. Assim nasceu o que hoje é o Museu Municipal de Peniche, dois museus num só: um museu do mar, que envolvia a realidade local, a terra de sofridos pescadores que lutavam pela vida, e outro, que albergaria, como memória também, a triste realidade dos que, privados da liberdade, lá sofreram anos a fio por terem lutado por um ideal humanista. Era elevado o patamar.

 

No entusiasmo do momento, muito foi feito com muito pouco. Todo o espaço, exterior e interior, foi limpo e arranjado. Um acervo histórico e arqueológico representativo da terra ocupou uma parte do museu. Vários doadores se entusiasmaram contribuindo com o que tinham: ânforas e cepos de âncora romanos, um precioso canhão de bronze manuelino, preciosos modelos para construção de barcos, uma grande colecção de conchas, muitas rendas de bilros com almofadas e piques, um escafandro usado pelos mergulhadores pé-de-chumbo que exploraram navios naufragados daqueles mares, vários objectos de pesca artesanal, etc., etc. Tendo havido em Peniche fotógrafos desde tempos remotos da fotografia, fez-se uma importante recolha de imagens antigas da terra, das quais se tirou contra-tipos negativos para os arquivos do museu, o que deu origem a uma visitada exposição. Tornou-se a fortaleza um lugar estratégico de apoio a iniciativas artísticas, que se desenvolveram, e a pesquisas científicas, como a exploração em terra e no mar do célebre naufrágio do galeão espanhol San Pedro de Alcantara, afundado na Papoa em Fevereiro de 1786, o que conduziu a descobertas históricas importantes expedições científicas feitas no Peru, a dramática história desse país, o comércio de metais (ouro e prata) entre a Europa e a América Latina no séc. XVIII. Houve encontros, conferências, debates. No espaço reservado ao chamado núcleo da resistência, com a colaboração de ex-prisioneiros e de resistentes antifascistas, foi criado um espaço com diversa iconografia e informação sobre o que tinha sido a vida na prisão. Tornou-se a fortaleza lugar obrigatório de visita de pessoas de Peniche, de escolas, de turistas, de militantes de esquerda, de investigadores, de curiosos, de sonhadores. Desde então que a média anual de visitantes ronda os quarenta mil. Era a prova provada de que a associação dos diversos motivos resultava, abrindo horizontes, não numa óptica fechada mas sim aberta, que nos ajuda a ver as coisas como o célebre cristal de múltiplas faces de André Breton, um sonhador por excelência.

 

Acontece que o sonho foi de pouca dura. Foi pena. O espaço é grande. Com pouca coisa e alguma imaginação ter-se-ia feito muito. Com meia dúzia de fotografias seria possível recriar o que Peniche fora. Bastava algumas reproduções e iconografia para ilustrar o importantíssimo Jurássico da abandonada gruta da Furninha. Bastava juntar algumas imagens que enchessem o olho aos painéis com os modelos usados pelos calafates de Peniche, doados pelo armador Luís Correia Peixoto, para reconstituir a história da construção naval em madeira. Associando a isso algumas das muitas bonitas fotografias que ele fez, via-se como eram os barcos e os homens que neles trabalhavam. Onde é que elas estão? Se aos cepos romanos fosse acrescentado o corpo de madeira que faz a âncora, adivinhava-se logo o tamanho dos navios que sulcaram aquelas águas. Se as ânforas romanas recolhidas nos mares de Peniche fossem expostas junto com aquelas que, vindas do fundo do Sado, ficaram depositadas no museu municipal mas que acabaram por ir parar ao Museu Nacional de Arqueologia, ter-se-ia percebido que as cetárias de Tróia (Setúbal) onde se fabricava o garum exportado para Roma envolviam a mesma actividade que os fornos de cerâmica entretanto descobertos em Peniche e que nessa actividade estão as raízes da indústria conserveira portuguesa. Se o espólio e o material didáctico reunido para exposições ocasionais sobre a história do naufrágio do San Pedro de Alcântara estivesse em exposição permanente na fortaleza, de certeza que o impacto da descoberta seria outro. Se porventura a colecção de conchas que se vê num dos espaços do museu estivesse acompanhada de imagens dos animais vivos, outra coisa seria. Se as rendas de bilros servissem para ilustrar o modo de vida das mulheres que as faziam, percebia-se quem elas eram e qual o papel que desempenhavam na vida familiar e na sociedade local. Se o entusiasmo que levou à criação do museu se tivesse mantido, com pouco mais algum dinheiro da autarquia, o que teria sido um bom exemplo, alguém havia de aparecer contribuindo e os edifícios poderiam ser mantidos em bom estado. Se na cisterna do forte (existe uma célebre cisterna semelhante em El Jadida, antinga possessão portuguesa de Mazagão, onde Orson Welles filmou Othello), fossem criados eventos, aproveitava-se bem um espaço inútil e, com alguma imaginação, muitos se deixariam seduzir. Se alguns dos espaços interiores da fortaleza fossem ampliados, com equipamento mínimo poder-se-ia fazer projecção de filmes, colóquios, debates, ilustrações virtuais, enfim trazer mais gente da terra e muito mais de fora, manter uma tradição que se perdeu. Se espaços comuns fossem utilizados ao serviço do museu do mar e ao da resistência ter-se-ia reforçado o elo e elevado o patamar.

 

Tudo o que lá está hoje exposto está em sapato muito apertado. Cada objecto mostrado necessita de mais contexto, de uma bem maior envolvência, de mais imagem, de mais vida.  Para tudo o que lá está e virá a existência de mais espaço é vital, muito mais se pretendermos impacto, se desejarmos que certas coisas falem como merecem. Além disso, nos tempos que correm, o estado dos edifícios, como todos sabem, é deplorável. Dá que pensar tudo ter ficado praticamente na mesma desde que o museu foi aberto. Só agora, que voltou à baila a questão da instalação de uma pousada na fortaleza de Peniche, que se diz compatível com o Museu da Resistência, os responsáveis acordaram em começar a pensar naquilo que há muito tempo já devia estar pensado. Há meio século (meio século!) que a fortaleza abriu as suas portas à cidade.

 

Agora, como dantes, o que parece ser pertinente e prioritário é a utilização do forte como espaço cultural. Parece também ser maioritário esse consenso. Peniche precisa disso como de pão para a boca. A questão da pousada, como é evidente, surge como coisa secundária. Serve apenas de argumento para quem defende o interesse em rentabilizar o local (o que só parece possível se a pousada for de luxo) ou para quem entende que ela própria poderá também servir o culto da memória e do saber (o que, no meio da confusão, tem sido motivo de gritantes omissões e de falsos consensos). A riqueza, neste caso preciso, virá do saber e não do descanso.

 

© Ricardo Costa, 4 de Novembro de 2008

 


 

 

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